sexta-feira, 16 de abril de 2010

A maternidade é uma forma de opressão?


Uma opinião radical, a da Sra. Elisabeth Badinter, sem sombra de dúvidas, mas vale a pena ler e refletir, nem que seja para discordar da rigidez dela, e para levar em conta e colocar em prática o que há de benéfico para cada uma de nós, mulheres, na filosofia que ela tão polemicamente tem criado nos últimos 30 anos com a publicação de seus livros que, em sua maioria, tratam da relação "mulher x maternidade".

Para ler o artigo (em inglês) publicado no jornal "The Guardian" com trechos de uma entrevista da autora sobre o seu mais recente livro "Conflito: mulheres e mães." clique aqui.



Fonte: http://www.guardian.co.uk/world/2010/feb/12/france-feminism-elisabeth-badinter

"A história da oposição dos homens à emancipação das mulheres
é mais interessante talvez
do que a história da própria emancipação."

Virginia Woolf
Escritora Inglesa

domingo, 11 de abril de 2010

Precisamos falar sobre Kevin




“Uma análise contemporânea da produção em série de assassinos mirins”, “uma análise do grande trauma da violência infanto-juvenil nos EUA”, “o drama de uma mãe que precisa conviver com o fato do filho ser psicopata e homicida.”, “o livro narra, sob o olhar da mãe, a saga de um garoto assassino”.

Fiquei impressionada com o número de resenhas críticas que resumem este livro a tudo, menos ao seu assunto principal, que não é nenhum dos mencionados acima, mas sim um excepcionalmente honesto e corajoso questionamento sobre a maternidade, sobre a ausência do desejo de se tornar mãe, sobre os receios de assumir responsabilidade por uma outra vida, sobre o medo de falhar, o medo da vida mudar completamente, de perder sua própria identidade para sempre e, acima de tudo, de não saber o que fazer com este questionamento.

“Precisamos falar sobre Kevin” é um livro que concretiza, através da história do relacionamento de Eva (mãe) e Kevin (o filho), um dos piores pesadelos de uma mãe: o de um dia se sentir severamente culpada pela personalidade doentia e pelo destino cruel de um filho que ela não desejou parir.

O filho de Eva Khatchadourian, de 15 anos, matou sete estudantes, um funcionário de uma cafeteria e um professor da sua escola, num bairro de classe média, em Nova York. Com Kevin agora encarcerado num centro de detenção juvenil, Eva passa a visitá-lo e a remoer os seus sentimentos sobre maternidade e o terrível crime cometido por Kevin.

Esse livro não é uma análise contemporânea de nenhuma fábrica de assassinos mirins e muito menos a saga de um assassino sobre o olhar da mãe. Eva não narra nada sobre o ponto de vista de Kevin. Ele é seu filho, mas ela mal o conhece. Ela criou barreiras entre os dois antes mesmo dele nascer e ele deu continuidade a cada uma delas. O que ela narra é a sua própria angústia. A angústia de uma mãe que não queria ter se tornado mãe, mas que o fez porque o marido queria muito tornar-se pai, e que, 15 anos depois, precisa encarar o fato de que o pai que queria muito ter um filho se provou um pai ausente, e que o filho que ela não desejava gerar se transformou num assassino. Desesperada, Eva recorre a uma catarse em forma de cartas escritas ao ex-marido, numa tentativa de descobrir se ela é culpada pelo filho ter se tornado quem se tornou.

Eva recorre a um doloroso processo de auto-análise e cava fundo o passado e o presente, revelando de forma honesta e brutal os seus conceitos, impressões e sensações sobre tornar-se mãe, sobre a vida a dois, e depois a três, sobre os desafios de tentar amar e de ter que criar Kevin, apesar de tudo o que sente por ele e de como se sente em relação a tudo o que mudou em sua volta desde o nascimento dele. Eva tenta descobrir o que fazer com o sentimento de culpa, mesmo não sabendo até que ponto toda a maldade que ela vê em Kevin é algo natural, que nasceu com ele; ou algo pelo qual ela é diretamente responsável.

O fato de este livro ter vendido mais de 1 milhão de cópias ao redor do mundo, ter sido traduzido em mais de 21 línguas, ganho o prêmio Orange Prize em 2005 e ter virado filme em 2011, não o protegeu de ser mal interpretado até mesmo por aqueles que leram todas as páginas do livro.

Isso prova o quanto a insensibilidade em relação ao questionamento sobre a maternidade ainda é latente. E é exatamente por isso que ele é necessário e que precisamos abrir espaço para que este seja feito tanto individual como coletivamente.

Numa entrevista ao World Book Club em setembro de 2009 a autora, Lionel Shriver, responde à seguinte pergunta feita pela apresentadora do programa:

BBC - Foram os massacres nas escolas que aconteceram na vida real e que foram executados por crianças, como os que aconteceram aqui nos Estados Unidos, e mais recentemente na Alemanha, que lhe inspiraram a escrever esse livro ou você começou a escrevê-lo por uma outra razão?

Lionel - Eu tive a idéia de tratar desse assunto ao ler os jornais. Este foi o meu ponto de partida, mas o que me surpreendeu quando comecei a trabalhar no projeto foi que até aquele momento eu achava que este seria o meu assunto principal e o que acabou acontecendo foi que descobri que não era bem isso, já que o assunto de verdade é a maternidade. Quando comecei a escrever o livro eu tinha quarenta e poucos anos e já estava no limite da possibilidade de gerar um filho. Até agora ainda não tive nenhum. Naquele época eu ainda poderia ter tido um filho se tivesse decidido fazê-lo. Mas, aquele foi o momento em que eu mais me questionei sobre essa decisão. Então acredito que toda a minha ansiedade sobre a maternidade e todas as questões em minha mente como: “do que é que eu tenho medo?” acabaram entrando no manuscrito imediatamente e se tornaram o assunto principal. Acho que é por isso que esse livro conquistou o interesse de tantas pessoas e atraiu uma audiência maior (se comparado com os meus outros livros). Não é que elas queiram ler mais um livro sobre os tiroteios executados por crianças, o que acontece é que existem muitas mães por aí, e muitos pais (já que este livro não é apenas para mães...) e muitos escritores de ficção que já passaram do momento em que decidiram ser pais (ou não) então acabam não tratando tanto desse assunto em seus livros; da dificuldade, de se tornar uma mãe ou um pai. Ao passo que eu estava muito consciente dessa dificuldade de criar uma criança enquanto escrevia o livro, e desde que ele foi lançado tenho falado com uma série de pais que manisfestaram satisfação pelo fato de que parte dessa dificuldade foi registrada em um livro de ficção.

Precisamos falar sobre o Kevin
Editora: Intrínseca
Autor: LIONEL SHRIVER
ISBN: 9788598078267
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 464

Nicole Rodrigues

quarta-feira, 7 de abril de 2010

No início era a mulher

" (...)

No início era a mulher.

Nas sociedades antigas, de subsistência, não havia necessidade de força física, e a mulher possuía papel central como reprodutora. Os homens primitivos adoravam as formas avantajadas da Vênus de Willendorf, portadora do segredo da vida.

Ainda hoje podemos encontrar em alguns lugares remotos remanescentes vivos desse tipo de cultura, como nas planícies remotas da África ou da Austrália, por exemplo. Neles, os integrantes do grupo vivem da pequena caça e da coleta de frutos, a mulher é vista como um ser sagrado, pois pode dar à luz. O feminino e o masculino governavam juntos, existia divisão do trabalho mas não desigualdade.

“Nos grupos matricêntricos, as formas de associação entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder nem a da herança, por isso a liberdade em termos sexuais era maior. Por outro lado, quase não existia guerra, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios”, nos diz Rose Marie Muraro, no prefácio de livro Malleus Maleficarum.

Mas, com o aumento no número de seres humanos, a competição por alimentos incitou a caça de animais cada vez maiores. Com a competição mais acirrada, as guerras passam a ser mais freqüentes, os guerreiros começam a ser vistos como heróis, iniciando o processo de ruptura com a crescente mitificação dos conflitos.

O homem ainda desconhecia sua função de reprodutor, e acreditava que a mulher ficava grávida dos deuses. Portanto, a elas ainda se atribuía uma áurea de misticismo e divindade, e os homens as invejavam, cultuado-as como a um ídolo.

O curioso é que essa primeira fase, a da “inveja do útero” é a precursora da famosa “inveja do pênis”, que Freud descobriria muito mais tarde. Durante a Idade Média, o útero era visto como uma entidade, um ser dotado de vontades próprias e de uma insaciedade demoníaca, uma teoria que serviu de base para explicar a culpa das mulheres durante os processos de Inquisição.

A inveja do útero deu origem a pelo menos dois rituais universais nas culturas antigas, e algumas ainda em andamento. O primeiro desses fenômenos denomina-se couvade, nele as mulheres começam a trabalhar logo depois do parto e os homens ficam em casa cuidando da prole e recebendo as visitas e os presentes. O outro é o ritual de iniciação masculino, aliás, muito bem detalhado no livro de Jung, O Homem e Seus Símbolos. Como os meninos não sofrem o processo de passagem oficial da infância para a adolescência, a saber, a menstruação, eles sofrem um violento ritual por volta dos doze anos, em que os homens da tribo simbolizam um “parto”. Desse modo, eles estão aptos a deixarem suas vidas de garotos e a tomarem as responsabilidades próprias de homens.

Tudo isso foi criado como uma forma de compensação pela inveja e sentimento de inferioridade que o homem nutria pela mulher.

Para as mulheres, a coisa começa a desandar no momento em que o homem descobre seu papel na reprodução, o que se deu provavelmente durante o Paleolítico. Já inflado por uma idéia de superioridade, obtida pela mitificação da guerra, o homem começa a controlar também a reprodução, e a mulher passa rapidamente de semi-deusa à propriedade privada. Surge o casamento como forma de controle sexual.

Nessa época, o homem começa a dominar também as técnicas de transformação dos metais, produzindo novas armas e também instrumentos para a atividade agrícola. Aparecem as aldeias pastoris citadas na Bíblia. Com a dominação da agricultura as tribos deixaram de ser nômades e puderam se desenvolver cada vez mais, criando laços hierárquicos cada vez mais sólidos, impulsionando o progresso. Surgem cidades, cidades-estados, impérios.

Infelizmente, nesse processo as mulheres são reduzidas ao âmbito doméstico, sua sexualidade é fortemente reprimida e o machismo começa a imperar nas civilizações (...) '.

Autor: Ricardo Borges

Pesquisando sobre a "Inveja do útero" encontrei esse artigo ("Ah... Essas Fêmeas Fatais") interessantíssimo escrito pelo Ricardo Borges, que se intitula um "escoteiro mirim na exploração da alma feminina" (risos). Curioso -- para dizer o mínimo! Ele é o autor de um blog tão curioso quanto ele. Se quiser ler e conferir mais fatos e imagens históricas sobre o assunto:http://floreslivroselua.wordpress.com/page/3/.

Imagem: Osvaldo Barreto


DESABAFOS DE UM ÚTERO VAZIO

Eu poderia ter herdado a coragem
do útero sagrado que me embalou,
mas não!

em vez disso me rebelei
contra o que há de mais feminino
(segundo a estupidez humana).

Não adianta gritar que não vou,
não vou parir nem hoje nem amanhã não senhor;
a senhora também?! Pelo amor de deus, o que é isso?

O que é seu ninguém tira,
mas o que é meu é problema meu,
não me faça perder a linha!

Se enxoto os instintos mais primitivos
não me custa nada enxotar também
as criaturas mais primitivas. Xô!

Melhor assim.
O silêncio abranda a raiva
e consola a culpa.

Mas pra raiva existe cura, pra culpa não.
Pelo menos não pra minha. Pelo menos não ainda.
Diacho de útero vazio!


Nicole Rodrigues

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