sábado, 20 de fevereiro de 2010

Hrotrud: a parteira

Gudrun: a mulher grávida

O cônego: o marido da mulher grávida



(...)

Hrotrud imediatamente viu que Gudrun encontrava-se em péssimo estado. Seu fôlego estava curto, sua pulsação perigosamente acelerada, seu corpo todo inchado. A parteira reconheceu os indícios. Não havia tempo a perder. Ela precisava aliviar a dor para que Gudrun pudesse relaxar e parir a criança. Para isso, usaria meimendro.

− O que é isso que pretende dar a ela? − perguntou bruscamente o cônego.

Hrotrud sobressaltou-se; quase que se esquecera que ele estava lá.

Ela está enfraquecida pelo trabalho de parto. Isto vai aliviar-lhe a dor e ajudar a criança a sair. O cônego franziu o cenho. Ele apanhou o meimendro das mãos da parteira, deu a volta na divisória e atirou-a ao fogo, onde sibilou brevemente e depois sumiu. – Isso é blasfêmia, mulher!

Hrotrud ficou horrorizada. Havia-lhe custado semanas de laboriosa busca juntar aquela pequena porção do precioso medicamento. Ela se voltou para o cônego, pronta para dar vazão à sua raiva, mas deteve-se ao ver o olhar empedernido dele.

− Está escrito – ele bateu no livro (na Bíblia) com a mão para dar ênfase −, “Entre dores darás à luz os filhos”. Esse remédio é pecaminoso!

A parteira estava, agora, indignada. Não havia nada de anticristão em seu remédio. O cônego, no entanto, nunca reclamou quando ela lhe deu meimendro para aliviar a dor das freqüentes dores de dente dele.

Gudrun gemeu, sacudida por outro espasmo de dor. Pois bem, pensou a parteira. Se o cônego não permitirá o meimendro, ela deveria recorrer a outra alternativa.. Tirou de sua bolsa um longo pedaço de tecido, e amarrou-o apertado em volta do abdômen de Gudrun, que gemeu quando Hrotrun tentou mexê-la. Movimentos eram dolorosos para ela, mas não podiam ser evitados. A parteira também tirou da bolsa um osso do tornozelo de um coelho. Com o maior cuidado, Hrotrud aparou três finas fatias e as colocou na boca da parturiente.

− Mastigue isso devagar − ela instruiu Gudrun, que acedeu fracamente. Hrotud pôs-se a esperar. Com o rabo do olho, espiou o cônego, de cenho franzido sobre o seu livro, num estado de profunda concentração.

Gudrun gemeu de novo e contorceu-se de dor, mas o cônego nem ergueu os olhos. Que sujeito frio, refletiu Hrotrud.

Fazia meia hora que Gudrun ingerira as aparas de osso de coelho, sem melhora alguma no seu estado. As dores permaneciam insistentes e inúteis, debilitando a mulher.

Hrotrud suspirou pesadamente: teria de recorrer a medidas mais drásticas.

O cônego revelou-se um problema quando Hrotrud lhe disse que precisaria de ajuda para fazer o parto.

− Mande buscar as mulheres da aldeia.

− Impossível, senhor. Mandar quem? Eu não posso ir, pois sua esposa precisa de mim aqui.

− Pois muito bem – ele disse: eu irei.

Levantou-se da cadeira, mas Hrotrud sacudia a cabeça impacientemente.

− Não vai adiantar. Quando o senhor voltar, será tarde demais. É da sua ajuda que eu preciso, e rápido, se quiser que sua esposa e seu bebê vivam.

− Minha ajuda? Ficou maluca, parteira? Isso − ele apontou com repugnância para a cama – é assunto de mulher. Não quero nada com isso.

− Então sua esposa morrerá.

− Está nas mãos de Deus, não nas minhas.
Hrotrud deu de ombros.

− Para mim dá no mesmo, mas o senhor não vai achar fácil criar dois filhos sem uma mãe.

O cônego encarou Hrotrud.

− Por que eu deveria dar ouvidos a você? Ela deu à luz antes, sem problemas. Eu a fortaleci com minhas orações. Você não tem como saber se ela vai morrer. Aquilo foi demais: cônego ou não, ninguém tinha o direito de pôr em dúvida a perícia dela como parteira.

− É o senhor que não sabe nada! O senhor nem se quer a olhou. Olhe para ela primeiro, depois venha me dizer que ela não está morrendo! O cônego foi até a cama e contemplou sua mulher. O cabelo úmido dela estava colado à pele, que havia ficado branco-amarela, os olhos de pestanas escuras profundamente encovados. Se não fosse pela respiração vacilante, ela já poderia ser dada como morta.

− Então? − alfinetou Hrotrud.

− Pelo sangue de Jesus, criatura! Por que não trouxe as mulheres com você?

− Como o senhor mesmo disse, sua esposa deu à luz antes sem problema algum.

− O que você quer que eu faça?

− Ah, pouca coisa. − Ela o conduziu de volta para a cama. − Para começar ajude-me a levantá-la.

Cada um de um lado dela, eles a seguravam por debaixo dos braços e ergueram. O corpo de

Gudrun estava pesadp, mas juntos conseguiram colocá-la em pé.

− Precisamos colocar o bebê para baixo. Quando eu mandar, levante-a o mais alto que puder, e sacuda-a com força.

Eles içaram Gudrun pelos braços e começaram a sacudi-la. Gudrun gritava e lutava para se soltar. Dor e pânico deram lhe uma força surpreendente: eles dois mal podiam dominá-la. Se ao menos ele tivesse me deixado dar o meimendro a ela, pensou Hrotrud, ela estaria semi-consciente agora.

Depois a de a içarem e sacudirem mais uma vez, a colocaram sobre a cama, onde ela jazeu quase desmaiada. Ótimo, pensou Hrotrud. Se eu for rápida, tudo estará terminado antes que ela recupere os sentidos.

Hrotrud procurou o canal de nascimento, tateando pela abertura no útero. Estava rija e inchada devido a longas horas de trabalho de parto ineficaz. Usando a unha do seu dedo indicador, que ela deixava comprida para esse propósito específico, Hrotrud rasgou o tecido resistente. Gudrun gemeu e ficou totalmente mole. Sangue morno derramou-se sobre a mão da parteira, descendo pelo braço dela, até a cama. Por fim ela sentiu a abertura cedendo. Hrotrud alcançou a cabeça do bebê, exercendo uma branda pressão para baixo.

− Segure-a pelos ombros e empurre-a na minha direção − ela instruiu o cônego. Após alguns minutos, o bebê começou a descer pelo canal de nascimento. A parteira continuou puxando firmemente, com cuidado para não ferir os ossos macios da moleira e do pescoço da criança. Por fim, a parte superior da cabeça do bebê apareceu. Hrotrud libertou a cabeça gentilmente, depois virou o corpo para permitir que o ombro direito, depois o esquerdo, emergissem. Com um último e firme puxão, o corpinhou deslizou umidamente para dentro dos braços de Hrotrud.

− Uma menina − a parteira anunciou. − E forte, pelo visto − acrescentou, diante do choro vigoroso e da saudável coloração rosada.
Ela se voltou, deparando com o olhar desaprovador do cônego.

− Uma menina − repetiu ele. Tanto esforço para nada!


Fonte: Trechos das páginas 12 a 17 do livro "Papisa Joana" de Donna Woolfolk Cross.

Conteúdo intra-uterino

Além de terem decidido não se tornarem mães, todas as mulheres, cujas fotos estão estampadas na barra lateral direita deste blog, foram/são escritoras. O que permite que as reflexões a serem expostas aqui no ùtero Vazio sejam feitas, principalmente, a partir de conteúdos literários – através de trechos de livros escritos por ou sobre essas mulheres. Todavia, a realidade não pode ser simplesmente ignorada em detrimento da ficção, por isso este espaço também estará aberto para a exposição de entrevistas, artigos científicos, trechos de biografias, reportagens e documentários que tratam de questões femininas e uterinas.

Sugestões, recomendações e indicações para enriquecer a galeria de personagens, livros e filmes serão sempre muito bem vindas.


Nicole Rodrigues

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O motivo e a razão do Útero Vazio

O objetivo deste blog não é decidir ou sugerir a nenhuma mulher o rumo que ela deve tomar em relação à maternidade. Trata-se apenas de um espaço livre de condicionamentos biológicos, imposições históricas, preconceitos sociais, ou laços maritais ou amorosos; de uma brecha, um refúgio, uma saleta onde mulheres podem refletir acerca da possibilidade de incluírem ou excluírem a maternidade de suas vidas sem sentimentos de obrigação ou culpa oriundos de quem ou do quê quer que seja.

É importante destacar que este espaço não foi criado para mobilizar, recrutar ou manipular mulheres a não terem filhos, mas sim para permitir que esta decisão seja não apenas tomada, mas pensada, e mais do que isso: de fato, desejada, por razões que vão além da sensação de dever a ser cumprido.

Tão importante quanto decidir ser ou não ser mãe, é ser capaz de descobrir quando e porquê fazê-lo, se este for o caminho escolhido.

Tão importante quanto a coragem para reconhecer o desinteresse pela experiência de gerar uma vida é a coragem para reconhecer o interesse em gerar, gestar e parir um bebê.

E mais importante que tudo isso é garantir que a decisão final, qualquer que seja, seja precedida de uma íntima auto-avaliação, de uma visita às profundezas de nós mesmas para que sejamos capazes de identificar, conhecer e respeitar as nossas características, aptidões, inclinações, habilidades, dificuldades e desejos.

Nicole Rodrigues

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